A vida toda é simbólica
A vida toda é simbólica, há que aprender a ler. É Cosmos, não Caos; há que aprender a categorizar as experiências em direção ao objetivo final de atingir a plenitude de ser mais humano. A vida é inteira pedagógica. Se houvesse um momento da sua vida que não tivesse nada para te ensinar, ele já não existiria.
Eu quero ser belo naturalmente como o mar Belo e viver a beleza que há em mim, a verdadeira beleza que consiste não na simetria perfeita, porque a simetria perfeita seduz, mas não comove. Eu quero estar por cima de tudo isso com um espaço imenso da minha própria liberdade interior e só, só porque eu posso, só, porque me é de direito natural. O passado perdeu as forças sobre mim, se desfez como nós… em uma rede que o mar leva e eu fico aqui, sólido, inteiro, profundamente inteiro. Absolutamente e simplesmente eu. Inteiramente eu. E há muito mais pra sentir. Há muito mais pra viver.
Sonho Noturno
Todas as noites, eu sonho que sou um pássaro. Isso implica que, do outro lado da realidade, só me encontrará quando olhar para o céu.
Os Três Refúgios
Há uma paz que só encontrei em três lugares em minha vida: Na arte, no colo da beleza. Na meditação, no colo do silêncio, e nos braços de minha mãe.
Ascendente em Libra
Coisas frias, coisas quentes, coisas molhadas secam e coisas ressecadas ficam molhadas. O natural também é sintético; a partir da mistura do natural com o sintético, cria-se um novo natural. Preto e branco, luz e sombra, dia e noite, bom e mau, macho e fêmea. Todos os pontos de vista se encontram num lugar em comum. Nada é completo. Tudo é pela metade. Eu não sou homem e também não sou mulher. Eu sou homem e sou mulher. Eu estou vivo e meio morto. Quanto mais eu vivo, mais me aproximo da minha morte. No caminho do meio está a pura contemplação. Invoco Oxum, minha Vênus de diversos nomes, para que permita que os átomos de meu corpo se alinhem com todos os átomos de todos os lugares, para que possa sentir a unidade. E peço em silêncio que minhas mãos preencham todos os lugares vazios com cores frescas, com tinta viva. Com a companhia de baianos, povo alegre e que sabe viver, na simplicidade de ser feliz como se é, peço que minha boca saiba sentir o tom dos sabores da vida com dignidade. Abro meu peito, com o timo exposto ao meio. Respiro fundo. E bebo bastante dessa água sagrada. E vivo. Eu estou consciente e enxergo o mundo como ele é, entre suas luzes e desvios. Peço, mais que tudo, para estar confortável, enfim, na minha própria pele, mãe sagrada.
O Manifesto dos quatro
A arte foi a primeira a chegar. Arte foi beleza e conexão, e uma nova forma de ver beleza em tudo. O amor chegou em segundo. O amor foi a fonte, a primeira energia e minha direção. A verdade foi a terceira. Verdade no que digo, no que eu como, no que eu quero, em quem sou e na oportunidade de sentir a minha energia viva, coerente e em paz. Abundância foi o quarto. Senti a generosidade da vida e desejo compartilhar essa generosidade com todas as almas do mundo.
Princípios da Dualidade
Não há Bem ou Mal, apenas Luz e Densidade. O Amor deve subir e o Ódio cair. Deus não precisa de corpo, a existência é seu corpo. Não há doenças, a menos que você acredite nelas. Eu falo com Deus da mesma forma que falo com outras pessoas.
A Origem da Vontade
Onde há uma Vontade, há um medo. Vontade vem de dentro do coração. O medo vem de fora. Ela é oposta ao medo. Só existe o Amor e o Medo, nada mais.
Quando voltou a enxergar
De repente, não mais que de repente, todo meu passado se desfez na minha frente. E surgiu um nada. Mas não um nada de dor e sofrimento; um nada de claridade da vida. De repente, não mais que de repente, a vida se abriu pra mim. A cortina que cobria meus olhos rejeitados se desfez e a força e clareza do meu ser se abriram. O medo se transmutou em energia viva de criação. Tudo posso criar se assim me fizer feliz. De nada dependo. Todos os quereres se transformam em nada, porque os quereres estão munidos de satisfações de recompensa e, como não desejo recompensa alguma, não tenho desejos. Já tudo tenho, já tudo sou e, dentro disso, tenho as escolhas. Posso escolher ser inseguro ou não. Posso escolher querer isso ou não. Posso escolher ajudar ou não. Sem ganhos. Só porque me interessa. Só porque vem de mim a vontade de aprender. O desejo de crescer — esse é constante e é como uma pulsação intensa do âmago da minha existência. Não está na mente. Está no fundo. O desejo de crescer e conhecer: esse é o desejo puro do meu ser. De repente, não mais que de repente, o nada se transforma no desejo de conhecer e na vontade de se interessar.
Lamparina Azul (A Cura através da Serpente)
I see you. Eu vejo você, minha sombra. Sempre ao lado do meu olho. E vendo você é a única forma de encará-lo, olhando-vos. E encarando-vos, eu vejo meus medos e inseguranças. E acessando o mal que há em mim, as maldades que penso de mim, a cobra que me enrola… Eu que crio. E se eu que crio a cobra, eu posso cortá-la ou empoderá-la a usá-la para o meu bem, para atacar todos que querem o meu mal ou devolvê-lo em conhecimento. A sombra da fama, da rejeição, da falta, da falta, da falta, da falta de criatividade, da falta de conexão… Eu transformo essa cobra em criatividade. Eu transformo essa cobra em conexão. A sombra que me faz mal, eu controlo para me fazer bem. A falta, a falta de controle, eu transformo em controle. A falta da falta de instinto, eu transformo em instinto do instinto do instinto sagrado que há em mim, que há na vida. A falta da falta de beleza que há na escuridão, eu transformo na beleza que há na escuridão. A falta da falta da falta da coragem, eu transformo na vontade da ação. A falta da falta do conhecimento, eu transformo no saber do que já sabe. A falta da falta da falta do ser, eu transformo no que é sem ser. Do nada que é tudo. Do silêncio que diz. A violência e injustiça do injustiçado, do seu e do justiceiro, eu transformo no equilíbrio da harmonia do que equilibra e julga por si mesmo no todo que julga maior. Das promessas não cumpridas, o que se cumpre na razão de ser. Da culpa do que não cumpriu e do que promete o que não prometeu. Da primeira vontade, a vontade verdadeira. Todo mal que há em mim eu ilumino com a lamparina azul. Necromancia: a ciência dos mortos e dos vivos. Daquilo que nunca morreu pois permanece vivo dentro e ainda mais fora. O cego que não enxerga pois tem medo de ver. O cego dos olhos da mentira de fora e da ilusão do que viu. Da verdade que há dentro. Não há religião superior à verdade, e a verdade é que há amor em tudo. Toda dor há o amor por dentro. Toda dor é a dor de não saber, de não sentir, da falta. É preciso curar a dor para sair o amor. É preciso diminuir o ódio para sair a vida, a cor. A sombra que não enxerga a si mesma é o medo de enfrentar o si próprio. Todo cigarro que se fuma é o ar, o prana que se busca. Todo texto que não termina é o começo que doeu. É a cura através da serpente que se enrola e comprime o mal para na dor pulsar a cura. Do falo que desapareceu, surgiu uma flor. O que é observado é aquele que não se observa. Tudo que você vê influencia você. A serpente te vê quando você não se vê. A cruz ela carrega, dos ignorantes que ainda não viram a verdade. E há uma serpente ainda maior, que é sua sombra à sua esquerda.
Astrologia
Com tuas ideias, seja como um ariano: corajoso, independente e pioneiro. Com teu dinheiro e posses, seja como um taurino: protetor, marque teu território e se permita sentir o prazer de possuir, sem medo. Com teus estudos, seja como um geminiano: não se apegue a nenhuma ideia preconcebida, seja curioso, permita-se fluir com o mundo das ideias. Com tua família, seja como um canceriano: ame-a com todo teu ser, mas saiba teu lugar dentro dela. Cada um pertence a um lugar na próprio. Não seja pais dos seus pais, assuma teu lugar. Você não é seus pais. Você é você. Com você mesmo, seja como um leonino: ame-se, exalte-se, ponha-te em primeiro lugar; você é o teu próprio Sol. Com teus inimigos e desafios, seja como um virginiano: detalhista, cético, minucioso e puro. Com teus amores e parceiros, seja como um libriano: ame, mas permita que tudo flua, tenha trocas sinceras, saiba que dar é receber, e que quem mais recebe é quem mais doa. Com teu sexo, seja como um escorpiano: profundo, sincero, visceral e atento. Saboreie. Com teus sonhos, seja como um sagitariano: não saiba o que é desistir. Expanda. Pense abundantemente. Creia que sempre existe uma resposta. O mundo é amplo. Com teu trabalho, seja como um capricorniano: leve a sério. Tenha responsa. Permita-se pensar grande. Vá na tua potência. Com teus amigos, seja um aquariano: exalte quem te exalta, esteja junto nas lutas, defenda o que e quem tu acreditas, mas seja livre de tudo e de todos. Você é único. Com o divino, seja como um pisciano: a vida é mais do que aparenta. Veja além das aparências; o amor é a resposta para todas as tuas perguntas.
Há uma beleza
Há uma certa beleza em encontrar-me nesse período de caos — onde aos poucos, como quem constrói ruínas, vou encontrando os tijolos da minha existência. E também ouso dizer que há uma poesia em minha insistentemente teimosia em continuar devendo para mim mesmo uma série de promessas de um dia ser mais Solar. Esse caminho perdido que é quase uma entrega à existência em si, vejo-me mais presente no espaço interno — como na escolha de palavras, desapegando da curadoria do que se é melhor dizer. Vivo expondo-me aos mais profundos medos que tenho, porque paralisar-me no tempo não é permitido.
Cântico do Pomar
Fica? Se te interessa, através dos jardins, através dos pomares, fica? Mas estou partindo. Meu dia fica sombrio sem sua face amarga, eis porque me dirijo agora à chama brilhante no céu, que é você. Minha alma corre à frente e diz: O corpo é lento demais, estou partindo. Maçãs exalam no pomar de minha alma quando te vejo, seu perfume me invade e me transporta. Beije-me com os beijos da sua boca, porque melhor é o seu amor do que o vinho. Formosa como a lua, brilhante como o sol. Teu fruto é doce ao meu paladar. Teus cabelos pretos como um corvo, favos de mel emanam dos teus lábios. Minha cabeça está cheia de orvalhos, imaginando teus cabelos pretos como as gotas da noite e o cheiro da tua respiração como o aroma das maçãs.
Camadas
Existem camadas dentro de mim. Camadas e camadas de medo. Camadas e camadas de arrepios do corpo que não encaixo, do ser que não sou, da angústia que não entendo. Camadas e camadas que se mostram mais grossas quando sinto a solidão. Sou eu as gritantes vozes na minha mente; às vezes silenciosas, às vezes dominadoras, escravocratas e pouco amigáveis — insistem no caminho fora do defeitinho. Um like aqui, um seguidor ali, um elogio de vez em quando; eu me pergunto: o que eu sou no real dentro disso tudo? Tenho pressa de viver. Tenho ânsia do agora. Quero ser livre — as mamas me seguram num lugar onde já não pertenço. O tempo corre lento. Quero me livrar das mamas pra poder correr sem medo. Isso é tudo pra mim. Aproveitar é a arte de saber se amar.
Mudança de mentalidade
A mudança de mentalidade de aprender com cada muralha auto imposta é deixar reverberar qual questionamento é valioso se ter, e o exercício de discernir do que me questiono e não cabe a mim obter respostas.
O sol há de brilhar mais uma vez
Eu sou o Pôr do Sol. Eu sou o momentum da fricção. O momentum do atrito. Eu sou o coelho branco que guia Alice através da caverna. Eu sou o momento em que o falo entra em contato com o buraco. Eu sou o momentum em que o Sol se põe, para a sombra escurecer toda a vida na Terra. Eu sou as trombetas que anunciam o final de uma nova Era. Eu sou o cirurgião que transforma o corpo; o paciente que entra um e sai outro. Eu sou a sensação do significado das coisas. Tudo é nutrido por um símbolo maior. Eu sou o ponto da bifurcação antes da escolha do caminho. A luz há de chegar aos corações.
Alma deserto
A verdadeira essência da alma está em não se limitar ao que o corpo impõe. É livre e doce, germina, heroína, cria e se expande. Flutua na inconstância do estar, leve como uma pluma, rápida e forte como a luz. A alma, deserto gigante de si mesmo com seu oásis prestes a ser descoberto, com a verdadeira vontade exposta aos olhos de quem realmente vê. E para beber da água pura deste paraíso — cristã cristalina que sacia até a sede do cão seco — é preciso ser si mesmo em cada pedaço minúsculo da areia desse deserto que é a vida.
Morning Prayer
Venha, nos encontre. Nos faça desaparecer no bosque, ali onde se senta num tronco de árvore e tem o céu acima, e se arrasta… Livre. Eu gosto das flores, das garotas e do vinho. Que bonitos são as flores, os meninos, as garotas e o céu. Desfaço-me de minhas velhas roupas, sou livre. Me liberte dos que roubam meu coração. Me liberte daqueles que transformam a vida em algo miserável. Me liberte dos que me afundam.
Minha estrela
Voei até as estrelas. Toquei as quatro lâmpadas do céu com minhas mãos cansadas. Fui recompensado com propósito, luz e direção para viver. Não posso e não sou nada além de mim mesmo: lento, incansável, pacífico e rebelde. Transcendendo a carne, busco pelo meu espírito. Tentava incansavelmente, no passado, tocar a minha sombra. Tão escura. Tão turva. Animal agressivo, irracional, direcionado pela vaidade e ambição. E, no caminho da sombra, descobri que quando um teto cai na sua cabeça, é para que você possa olhar as estrelas.
Jyotisha
O céu foi decorado com constelações que iluminam como diamantes na escuridão. A luz do sol as esconde durante o dia, assim guardando todo o conhecimento sagrado que só é capaz de ser profetizado na escuridão da noite.
Alicate
Nos meus braços passam-se fios agonizantes, fios que circulam como um rio vindo das veias do meu enorme e bruto coração. Coração animal, coração felino, ferido? Obstruídas minhas veias, dissecada minha carne. Alimento meu corpo com óleos essenciais de lavanda para a recuperação do meu ser. O que pretendo dizer é que as palavras saem como energias, e as sensações no corpo se evaporam. Mas é óbvio que não tenho todas as respostas assopradas ao pé do meu ouvido. Estou saindo da conexão com o outro e entrando na minha conexão. Eu não sou um egoísta, é questão de sobrevivência; é a minha busca de querer irradiar luz. No fim, quando me olho no espelho, meu cabelo é preto. Não precisa ser loiro para significar que estou mais iluminado. É de dentro para fora, e de fora para dentro — um eterno ciclo. Olho no fundo dos meus olhos quando me olho no espelho da minha alma — olhos físicos já cansados e confusos. É o começo… E, como todo começo, ainda não ergui templos nem estátuas de mármore grego, mas já prometo uma caneca do bom vinho tinto com mel e canela.
Lisérgico / Cabelos Cacheados
Nosso amor lisérgico com cheiro de banho quente e sexo molhado. Eu sempre quero mergulhar dentro de você. Te toco. Eu te deixo marcada, eu marco, eu fito você. São Paulo é só nosso e nem tanto. Suas curvas, todas elas têm orelhas, gargantas, vestidos e ex-amantes. Na maioria das vezes, a lua me chama e está estampado no meu olhar: ela me toma, e eu acabo sempre querendo acordar ao seu lado; eu nunca sei o que fazer. Fumando cigarros, olhando para o teto, eu nunca fui desleal. Eu aprendo o tempo todo. Eu sempre espiei as curvas de mulheres no escuro, e sempre gostei muito pouco, e eu sempre mudo tanto — o afeto, a carência, o controle. Eu tenho aguentado muito pouco. O meu cavalo sempre foi mais forte que o do meu pai; poderia ter me feito cair. Nada importa, a não ser ficar se virando no seu colchão, a garrafa vazia e nada que eu queira esquecer. Ela lê minhas maiores fraquezas. Eu leio todos os medos dela. Gostava de dançar e se exibir — cabelo cacheado, olhos pintados, vermelha. Cigana dissimulada, ela desviou todos os meus medos e eu gostei tanto. Eu quero que ela saiba… De coisa nenhuma. E ela diz que eu preciso ser mais paciente: “Você devia comer mais devagar”. Mas as coisas sempre chegam tão tarde. “Eu sempre quis transar com aquele cara”. “Você está sempre se exibindo”. Então você vai ir, como veio, tão rápido para mim. E nós já dissemos adeus antes, e eu não vou te encontrar na rua. E, quando meu telefone tocar, vai ser sempre a voz errada. Não basta que não seja a primeira, e eu vou viver muitos dias sem ter paz. Me traga, mais uma vez esta semana, cara a cara com meu choro — mas eu nunca choro. Você vai me deixar? Nós éramos o casal perfeito: Bonnie e Clyde, Frida e Diego. “Perfeita”, eu sempre te dizia, e você retrucava: “Não gosto dessa palavra. Tudo é imperfeito”. Dois beijos, molhado, bala, doce, cocaína. A gente vai parar. Vamos viajar, ter 3 cachorros e uma casa na Bahia. Está perfeito, amém. Mas eu sei que você não me ama. Não faz mal. Quando acontece aquela festa, significa que a gente não está junto.
Cabelos cacheados malditos. Passei a odiar todas as pessoas que possuem esses cabelos. Cabelo desalinhado, hermético, armado. Cabelo que não faz sentido. Cabelo bonito. Todo cabelo cacheado é você. Sua alma vive nesses cabelos. Eu escuto uma música. Eu bebo uma cerveja. Eu revejo meus amigos. É como se a realidade tivesse virado um grande sonho-déjà-vu-pesadelo. Um sonho em que você nunca existiu. Você existiu ou eu te inventei? Tem uma sombra sua por onde eu passo. Ninguém fala no teu nome. A vizinha me paquerou agora.
Teto da Rua
De outros tempos
Em um breve ímpeto de insanidade, me atirei no chão, sentindo-me do tamanho do mundo. Todas as músicas da história do mundo tocando ao mesmo tempo dentro de mim, ensurdecendo-me uma a uma. Fascinação. Pupilas gustativas pulsando a milhão e contrações. De repente, me veio uma vontade absurda de expandir, aumentar minha superfície de contato. Ouço os estalos da minha caixa torácica enquanto me espreguiço, abrindo-se que nem uma piranha de cabelo barulhenta — costelas e articulações. Não há limites nem dor nesse devaneio. A ossada do meu esterno… que saudade que eu estava de sentir a ossada do meu esterno. Espalhar minha existência por todas as cidades, entrar em todos os poros do cosmos, visitar buracos e bueiros. Em segundos, me sinto cansado e volta tudo para a minha velha insanidade. Aí, o tédio. A realidade. Dois cigarros desnecessários um atrás do outro. Por que eu ainda fumo? O pó dos cantos da minha casa. As coisas deixadas em cima das outras coisas. Tudo em desordem por causa do amontoamento de emoções que eu sinto, confundindo o julgamento do que eu digo e do que eu faço. Marcas de cerveja que me recusei a tirar para lembrar do porre. O tapete amassado. Outro tapete amassado. Outro tapete amassado com marcas de cerveja. Tem um engano e um santo na estante, e uma planta completamente morta na varanda. E eu ainda tenho que lavar a louça de ontem.
Volta e meia tô por aqui
A morte é certa para aqueles que nascem, e o nascimento é certo para aqueles que morrem.
Procure a lua no céu
Procure a lua no céu. O gosto amargo daquele velho cigarro ainda vive na boca do velho homem de coração quebrado. Ainda vive. O dela também. Os desejos e sonhos sumiam, subiam com a fumaça. As mãos geladas. Os rostos secos. Cheiravam a saudade… a dezembro, mas eu queria o cheiro de casa. Ele olhava. Ela sorria. Ele não sentia nada. (Mas a esperança de um futuro a rodeava). A chama ainda se manteve acesa por alguns dias, mas se apagava a cada trago. Tocou a boca, sentiu o gosto, puxou para dentro do corpo, queimou a garganta e se foi como o vento, com o vento… Não tinha vento. Fecha os olhos, tudo começa outra vez… Ele soltava a mão dela e recitava, voando: “Decisões erradas, loucas, rodeiam minha cama. Prendem minha alma e o corpo se vai…”
(Sem título)
Dizem que a melhor forma de esquecer um amor é transformando-o em literatura. A arte é estética, estética é harmonia, harmonia é beleza, beleza é paz.
Gabriela
Cheiro de perfume. Revivi do amor que não foi, de amor que só eu vivi. Me alimentei e me vesti de roupas que nem serviam mais. Seus toques sem a pura intenção mataram o que já não vivia. Mataram a flor amarela que ficou cinza. E parei de viver da imagem da mulher, dos sonhos que se formavam num quadro fixo de tua beleza, sempre bela. No passado ficou… Morta. E presa na parede do meu quarto, como uma pintura que nem vale mais, de qualquer artista de rua. Que toda noite revive: os olhos a beijam, o sorriso disfarça e segue o contexto.
Noite Sombria
Não vejo, sinto. Memórias e coração fraco. O ódio existe e ele é só… Também sou só, silencioso e lento, iluminado e sombrio, como a noite, como a lua. A praça vazia, o som do vento, o aroma do açúcar, o cheiro do café quente, do doce, da mãe, das mãos, das vozes doces… Da vida, de você… Do que fomos… “Os sonhos são mais fragmentados. São mais obscuros”.
Tempo
Para viver do enfim, amor, quanto tempo deve levar? Para as novas pessoas que iremos ser, será que o amor vai durar? Para saciar a sede do coração, quanto o amor vai ter que dar? Para aguentar a saudade, quanto tempo o tempo há de levar? Vou vivendo do futuro, pois do passado construí você e o presente eu adio para depois…
Um passarinho morto na varanda
O dia se iniciou. O Sol nasceu, as mães acordaram para estender as roupas no varal, os cachorros começaram a latir, as flores desabrocharam, os passarinhos cantaram, a padaria abriu, a cidade acordou e o dia se iniciou. E o que mais eu poderia dizer? O dia se iniciou como deveria ter sido iniciado. Eu acordei com o lençol bagunçado, o cabelo bagunçado, a vida bagunçada. Como de costume. Acordei com dor nas costas, dor na alma, com os pés sem as meias. Como de costume. Espreguicei meu corpo, bocejei, levantei-me da cama ainda meio sonolento… Calcei o mesmo par de chinelos velhos, procurei os óculos, encontrei-os e aos poucos fui voltando a enxergar o velho mundo. Lavei meu rosto, enxuguei os restos da noite passada que restavam em meus olhos, os restos das velhas lágrimas, os restos dos velhos pesadelos. O dia se iniciou como deveria ter sido iniciado. Eu acordei como deveria acordado. Nada mais e nem nada menos. Tudo estava no lugar, como eu havia deixado na noite passada. Porém, tudo estava perfeito naquela manhã, tudo fazia sentido… Nada havia de ser mudado; até o mais simples som soava porque tinha de ser soado. O destino se encaixava perfeitamente com tudo o que acontecia ao meu redor. Eu estava onde deveria estar. O mundo fez sentido. E, mesmo não sabendo, algo grande havia mudado. Não era o dia. Não era o mundo. Não foram as pessoas ou os objetos, ou qualquer coisa que eu pudesse ver. Era algo dentro de mim. Lembrei-me da semana que havia passado e de como tudo era desagradável e todos os meus motivos se resumiam em um cenário perfeito para um drama pessoal, um enlouquer da minha mente ou para uma morte trágica e rápida. Mas aquele dia foi diferente exatamente por isso. Foi diferente por ser o dia de uma morte… Fez-se um silêncio assustador que durou alguns segundos; logo depois, um grito desesperado se iniciou baixinho e foi aumentando, aumentando… Até se tornar agudo e tão intenso que mataria qualquer um que o ouvisse. Quando enfim acabou, houve uma breve pausa, um sopro de hálito fresco nos meus cabelos e uma sensação de alívio no peito. A dor da noite passada cessou quando abri os olhos pela manhã e vi que a vida continuava e o mundo ainda girava… Fui tomado por uma sensação de leveza tremenda e comecei a sentir a liberdade vindo ao meu encontro novamente. Livre de uma mentira que durou 4 longos anos. Livre para sentir novamente… O telefone toca e uma canção suave anuncia a morte mais esperada e aliviadora para os meus ouvidos: se nada mais nela te agradava, se os defeitos foram maiores do que as qualidades que no começo os uniam… É declarado o fim: o amor morreu. Não sei se é pálida ou negra, mas, se sobra ao meu ouvido, sei que é meu fim.
Alvorada
“Enquanto seus olhos estão fechados e vão se abrindo lentamente, eu assisto com ansiedade a essa alvorada. Imaginando o que se passa em sua mente, esperando que este sonho que te mantém tão calma seja comigo… E então, você dá um sorriso tão sincero que transborda em mim certezas, e meu único desejo é que, a partir desse momento, para o resto da minha vida, este seja o único nascer do sol que eu assista. ‘Fique comigo’… Meu coração só sabe repetir isso. ‘Não fuja de quem nós somos’. Eu quero te mostrar que nós vamos fazer isto certo agora: amando e andando. Eu volto ao que nós éramos, perdendo quem nós somos. E todo mundo sabe, eu tenho me quebrado apenas para manter isso intacto. ‘Abra seus olhos’… E com essa dor, tente não chorar. Eu ainda estarei aqui para segurar sua mão e te levar até o caminho de casa. ‘Mantenha a calma’… Voltando aonde iniciamos, perdemos o que eu sou agora, me torno uma criança dependente do seu carinho. E todo mundo sabe que eu tenho sangrado para manter isso intacto… ” Agora vejo que nunca saberia o quanto sentia tua falta, até você voltar.
Fria
Madrugada de seda, e fria. Levanto. Vou à cozinha, café. Acabou o café. Leite. Acabou o leite. Bolachas. Ainda existem bolachas. De resto, eu estou aqui ainda. Cheiro que me lembra o passado… Cheiro do passado me traz felicidade e tristeza ao mesmo tempo. Sentimento estranho.